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Você tem medo de Geologia?

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Desmistificando o uso da Geologia no gerenciamento de áreas contaminadas

 

Ao longo da minha atuação no gerenciamento de áreas contaminadas, muitas vezes encontrei algum tipo de resistência à aplicação de conceitos geológicos que fossem além da simples interpretação textural de perfis e da montagem de seções baseadas apenas nesta interpretação. Por exemplo, defender a identificação de ambientes deposicionais já me rendeu algumas críticas do tipo “isto é geologia demais”, apesar de autores como PAYNE et al. (2008) defenderem a interpretação genética dos solos sedimentares como condição para entender e prever sua variabilidade textural e hidráulica.


Eu concordo que uma interpretação mais profunda da geologia do subsolo de uma área contaminada pode ser um assunto árido nas etapas de Avaliação Preliminar e na Investigação Confirmatória devido a eventual escassez de dados. Entretanto, quando o gerenciamento evolui para Investigação Detalhada não há alternativa: investigar uma contaminação que penetra no solo e atinge por vezes o aquífero irá envolver, em algum momento, um estudo mais pujante do subsolo e consequentemente uma boa dose de Geologia será necessária para que seja minimamente entendida a distribuição e a evolução do contaminante no subsolo. Ao término da Investigação Detalhada, você certamente terá que estar pronto para responder questões acerca da heterogeneidade e anisotropia do solo, arquitetura tridimensional de aquíferos, questões sobre a ocorrência natural das substâncias de interesse, hidrogeologia, além modelar fluxo e transporte subterrâneo e no fim completar seu modelo conceitual. Responder a estas questões com eficiência certamente contribuirá para um gerenciamento bem-sucedido.


Hoje não há mais desculpas para um trabalho de pouco detalhe ou mesmo incompleto: o ferramental disponível atualmente para a investigação do subsolo é farto e fantástico. Outrora, sondagens manuais de reconhecimento do solo e poços de monitoramento eram praticamente as únicas ferramentas disponíveis. Hoje, com as ferramentas corretas, é possível varrer o subsolo de um site ou mesmo investiga-lo em apenas alguns dias. Porém, a escolha das ferramentas adequadas de investigação também passa pelo conhecimento da geologia local: meios porosos de baixa permeabilidade exigem métodos e ferramentas de investigação diferentes daquelas utilizadas para meios de alta permeabilidade. Aliás, há publicações integralmente dedicadas a investigação de meios porosos de baixa permeabilidade.

Hipgnosis / SHUTTERSTOCK


Com base em minha experiência no gerenciamento de áreas contaminadas, apresento as seguintes sugestões de ações para viabilizar uma interpretação geológica mais eficiente do subsolo de áreas contaminadas:


•    Interprete a geologia desde o primeiro metro de sondagem realizado em um site, identificando aspectos texturais, estruturais e genéticos


•  Comece separando camadas tecnogênicas (por exemplo aterros) das naturais e dentre as naturais separe aquelas que são constituídas por solo residual (sem transporte) daquelas constituídas por solo sedimentar (também conhecido por solo transportado)


•    Seções geológicas são representações importantes para o entendimento do subsolo, por isso, não tenha preguiça, construa quantas seções geológicas forem necessárias para permitir um melhor entendimento e representação da geologia, ou então use um software que permita a representação 3D


•    A grande maioria dos trabalhos de investigação de áreas contaminadas ocorre em áreas continentais, por isso, a maioria dos depósitos sedimentares inconsolidados a serem investigados serão provavelmente de origem fluvial, ou seja, terão sido depositados (acumulados) por rios ou processos associados aos rios (planícies de inundação, meandros abandonados) e se você mora em um pais tropical como o Brasil, a outra grande parte do solo será constituída por solos residuais, as vezes com espessuras de dezenas de metros. Por isso, adquirir conhecimento sobre estes dois tipos de solo é mandatório. Recomendo como leitura inicial RICCOMINI et al (2003) sobre ambientes fluviais e a TOLEDO et al. (2003) sobre a formação de solos. Para quem deseja se aprofundar: Fluvial Depotional Systems MIALL (2014)


A interpretação da geologia muitas vezes é desconsiderada ou realizada de forma inábil, criando uma lacuna de conhecimento do subsolo em áreas contaminadas. Se nas fases iniciais de um projeto de gerenciamento a influência desta lacuna aparentemente tem pouca influência, nas etapas seguintes pode ser fator determinante para o fracasso do projeto. Não tenha medo da Geologia e instrua-se no assunto.

 

Você concorda com as ações propostas? 

 

Meu nome é Sergio Matos, sou geólogo e consultor para gerenciamento de áreas contaminadas.

 

Para comentários:

e-mail: sergio@pangeo.com.br

Whatsapp 11 999165362

Ou acesse: https://www.pangeo.com.br/contato
 

 

Referências:
 

MIALL, Andrew 2014. Fluvial Depotional Systems. Springer. Switzerland 294p.
RICCOMINI, Cláudio, GIANNINI, Paulo Cesar, MANCINI, Fernando 2003.  Rios e processos Aluviais. In: TEIXEIRA, Wilson, TOLEDO, Maria Cristina Motta, FAIRCHILD, Thomas Rich, TAIOLI, Fábio editores Decifrando a Terra. Oficina de Textos. São Paulo. P 191-214.
PAYNE, Fred C., QUINNAN, Joseph A., POTTER, Scott T. 2008. Remediation Hydraulics CRC Press Boca Raton 408p.
TOLEDO, Maria Cristina Motta, OLIVEIRA, Sonia Maria B., MELFI, Adolpho 2013. Intemperismo e formação do solo. In: TEIXEIRA, Wilson, TOLEDO, Maria Cristina Motta, FAIRCHILD, Thomas Rich, TAIOLI, Fábio editores Decifrando a Terra. Oficina de Textos. São Paulo. P 139-166.


 

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